Nesta terça-feira (21), a Folha de Pernambuco divulgou artigo elaborado pela Dra. Constança, uma das embaixadoras do Trata Brasil. Confira:

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Por: Dra. Constança Simões Barbosa (Laboratório de Esquistossomose, CPqAM/Fiocruz e Embaixadora do Instituto Trata Brasil) e Reinaldo Santos (Departamento de Endemias – Escola Nacional de Saude Publica – Fiocruz)

A esquistossomose é uma doença transmitida pelo parasita Schistosoma mansoni que tem como hospedeiro intermediário caramujos de água doce do gênero Biomphalaria.  Estão sendo cada vez mais frequentes os surtos de esquistossomose aguda em regiões turísticas do Brasil, com registros nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte (Minas Gerais), do Recife (Pernambuco) e de Aracaju (Sergipe).  O estado de Pernambuco destaca-se por apresentar altas taxas de infecção humana, casos agudos e graves e expressivo número de óbitos por esquistossomose, tanto nas tradicionais áreas endêmicas rurais como em localidades litorâneas onde esta doença foi introduzida e está estabelecida. Existem várias localidades pernambucanas com índices de positividade humana acima de 15%, indicador preocupante uma vez que a manutenção destas taxas é um indicativo de que a população atingida vai evoluir para as formas graves da doença que levam ao óbito.

O incremento da indústria do turismo em Pernambuco contribui para o desenvolvimento econômico e social do estado atraindo os visitantes, contudo as paisagens com atrativos aquáticos naturais estão sendo poluídas  trazendo sérios prejuízos ao meio ambiente. Os proprietários agrícolas e empresários urbanos têm sido encorajados a diversificar suas atividades investindo em estruturas para recreação sem a devida atenção a obras de saneamento básico que deem segurança sanitária às atividades de lazer em águas doces.

No estado pernambucano, o lançamento de esgotos em rios, lagoas e em valas peridomiciliares, tem criado ambientes insalubres propícios para a transmissão de doenças parasitárias, a exemplo dos inúmeros registros de casos de esquistossomose em locais turísticos como os balneários de Porto de Galinhas, Itamaracá, Serrambi, onde as pessoas se tornam vulneráveis ao adoecimento ao serem expostas a ambientes insalubres contaminados por material fecal.

Viajantes infectados por esquistossomose desenvolvem a forma aguda da doença, uma vez que inexiste o contato prévio com o parasita S.mansoni. Como a infecção aguda é autolimitada, os viajantes podem voltar para casa sem demonstrarem sinais típicos da infecção, retardando assim o tratamento oportuno, contribuindo para propagar a doença para áreas indenes tendo em vista que se movem entre espaços endêmicos e não endêmicos.

Entre maio a dezembro de 2016 o Laboratório e Serviço de Referencia em Esquistossomose do CPqAM/Fiocruz realizou uma pesquisa em 73 localidades pernambucanas onde se pratica o turismo de lazer em ambientes aquáticos dulciaquicolas nas quais foram identificadas 43 criadouros e 12 focos de transmissão ativa dos moluscos transmissores da esquistossomose. Nos criadouros foram coletados os moluscos transmissores da esquistossomose para identificação das espécies e para verificação da infectividade pelo S.mansoni através de técnicas de diagnóstico molecular que permite identificar o DNA deste parasito dentro do caramujo. Os criadouros foram categorizados como naturais (lagoa, rio, cachoeira) e artificiais (piscinas naturais e pesque e pague).

Os dados coletados foram estatisticamente analisados e espacializados para verificação dos padrões de distribuição, identificando áreas de risco.

Os focos, que efetivamente significam risco para transmissão da doença, foram identificados na região metropolitana, na zona da mata e em municípios vizinhos ao agreste pernambucano. Já os criadouros de caramujos transmissores foram identificados nas três regiões e se receberem contaminação fecal se transformarão em focos de transmissão. Todas as coleções hídricas identificadas nesta pesquisa possuem características ecológicas semelhantes e propícias para criação e manutenção dos caramujos vetores da esquistossomose, o que lhes confere potencial de risco para focos de transmissão desta doença, uma vez que forem contaminadas por material fecal. Vale salientar que a poluição fecal dos recursos dulciaquícolas é responsável também pela ocorrência de várias outras doenças de veiculação hídrica como: cólera, doenças bacterianas infecciosas, salmoneloses.

O conhecimento gerado por esta pesquisa evidencia a existência de ambientes insalubres em localidades turísticas do estado de Pernambuco onde se realizam atividades recreacionais aquáticas, apontando a necessidade de ações eficazes de vigilância, saneamento e monitoramento das localidades vulneráveis identificadas, minimizando assim a transmissão da esquistossomose e protegendo a saúde das populações que frequentam esses ambientes.

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