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O conceito de “pegada hídrica”, volume total de água doce usado para produzir bens e serviços consumidos pelo indivíduo, comunidade ou produzidos pelas empresas, lidera um esforço internacional que analisa fluxos e desperdícios, estimulando a gestão da água pela demanda. Os 140 litros de água gastos para produzir cada xícara de café desde o plantio, por exemplo, são desconhecidos pelo consumidor, mas precisam ser conhecidos e contabilizados por hidro-gestores públicos e privados, responsáveis por eventuais enfrentamentos de crises hídricas.

O alto impacto do crescimento demográfico, que pressiona o consumo de todas as formas, não pode passar despercebido. Em 1900, cerca de 150 milhões de pessoas moravam em cidades. Em 2000, a população urbana pulou para 2,8 bilhões e, desde 2008, mais de 50% da população da Terra vive amontoada em cidades. No Brasil, 84% da população é urbana e, segundo o IBGE, crescerá para 90% em 2020.

A velocidade do crescimento das cidades criou uma civilização de “seres urbanos” de alto consumo hídrico. Estatísticas informam o uso indireto de água (per capita) no consumo de produtos e serviços: ovo – 196 L/unidade, batata – 287 L/Kg, pão – 1.608 L/Kg, macarrão – 1.849 L/kg, arroz – 2.497 L/Kg, calca jeans – 11.000 L/unidade, carro – 400.000 L/unidade (média).

Vislumbrando esses impactos, o número de empresas multinacionais que já investem em ações para valorar o capital natural cresceu 71% entre 2014 e 2015, mostra o WWI-Worldwatch Institute. O Acordo de Paris, firmado em dezembro de 2015, deu largada a corrida internacional de  empresas que buscam entender o valor do capital natural, começando pela energia renovável e a água.

Novos softwares digitalizados ajudam a identificar estresses atuais e futuros da água, como escassez, superabundância, poluição e evaporação nas bacias hidrográficas, determinando custos financeiros, ambientais e sociais de investimentos nas bacias. Sobradinho, um dos maiores lagos artificiais do mundo situado no Norte da Bahia, com 828 km² de área e potencial para reservar 32,2 km³ de água, quando cheio, evapora 200.000 litros de água por segundo. Minerando dados e construindo mapas para facilitar a gestão em regiões específicas, os programas podem ser calibrados para simular diferentes cenários, inclusive de restauração de zonas úmidas e matas ciliares.

Completando 10 anos a Lei nº 11.445/2007 que regulamenta o saneamento básico – direito assegurado pela Constituição – um conjunto dos serviços, infraestrutura e instalações operacionais de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza e drenagem urbanas, manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais; o país apresenta o seguinte cenário: 83,3% dos brasileiros são atendidos com abastecimento de água tratada e 50,3% têm acesso à coleta de esgoto (100 milhões não têm).

Ao todo, 42,67% dos esgotos do país são tratados, com percentuais diferentes em cada região. Norte: 16,42%, Nordeste: 32,11%, Sudeste: 47,39%, Sul: 41,43%, Centro-Oeste: 50,22%, segundo dados do Trata Brasil.

Com apenas 55% dos municípios brasileiros dispondo de saneamento básico (IBGE), mais de 40% da água tratada é perdida nas redes antes de chegar ao seu destino. Esses novos softwares analisam um conjunto de dados financeiros sobre os custos, preços e valores que empresas pagam pelo serviço de água e o custo para operar reservatórios, suas perdas e os serviços de fornecimento de água.

Capital da potência hídrica do planeta, Brasilia sediará o Fórum Mundial da Água em abril de 2018 – o maior evento global da água – reunindo governos, academia, gestores públicos e privados, cerca de 30 mil participantes e a mídia internacional. Durante o evento, o país anfitrião exibirá o status dos seus recursos hídricos, as formas de gestão e as politicas públicas para um mundo que cresce na velocidade de 80 milhões de novos habitantes/consumidores por ano, apura valores e investe na gestão “eco-nômica” de cada gota d’água.
Eduardo Athayde, diretor do WWI-Worldwatch Institute

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