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No dia 28 de abril é celebrado o Dia Mundial da Educação. Saneamento básico está intrinsicamente ligado a este setor tão importante da sociedade, pois é a partir da educação que a situação do país pode mudar em relação aos números vergonhosos de acesso à água, coleta e tratamento dos esgotos.

De acordo com o estudo “Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento Brasileiro”, realizado pelo Instituto Trata Brasil em abril de 2017, estudantes sem acesso a serviços básicos, como o acesso à água e ao esgoto coletado podem sofrer um atraso maior no aprendizado escolar do que aqueles que têm acesso ao saneamento.

Um dos principais dados do estudo mostrou que moradores de áreas sem acesso à rede de distribuição de água e de coleta de esgotos têm uma redução do atraso escolar, ou seja, uma escolaridade menor significa uma perda de produtividade e de remuneração das gerações futuras. Somente o custo desse atraso escolar devido à falta de saneamento alcançou R$ 16,6 bilhões em 2015.

Para falar sobre a importância da educação ambiental, o ITB entrevistou o Prof. Dr. Leandro Giatti, embaixador do Trata Brasil, que também é Professor Doutor no Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Confira entrevista:

 – Como a educação ajuda na conscientização do consumo de água?

 Acredito em projetos pedagógicos que direcionam a uma “educação para a vida”, em contraponto às pressões hegemônicas que podem direcionar a educação simplesmente para o mercado de trabalho (competição) e/ou para o mundo do consumo. Educar para a vida significa tratar da complexidade do mundo, da ética, de valores de sustentabilidade. Nesta perspectiva o cuidado com o meio ambiente deve ser tratado como um cuidado à vida, à própria vida e à saúde das pessoas, assim como a saúde dos ecossistemas, sejam eles naturais ou antropizados.

 – O quanto é importante informar sobre saneamento básico e água tratada nas escolas e faculdades?

 É fundamental, mas não apenas informar. É necessário promover constantes discussões e estimular protagonismos para com a questão do saneamento, para isso deve-se sensibilizar as pessoas (nas escolas, nas universidades e em espaços informais) quanto a uma visão mais integral, sistêmica sobre o saneamento. Por exemplo, não basta as pessoas terem a percepção de que os esgotos domésticos são uma questão resolvida simplesmente porque existe coleta e os esgotos são afastados. É importante trabalhar com a ideia de que nossos rios, lamentavelmente, continuam poluídos porque os esgotos não são devidamente tratados. As pessoas devem ser sensibilizadas de modo que passem a perceber o valor da saúde urbana, da cidade saneada, do rio em melhores condições. As cidades com melhores condições ambientais também oferecem melhores condições de vida e de saúde, além disso, inclusive atraem mais investimentos. Esse seria um sentido ampliado para se trabalhar a questão do saneamento nas cidades brasileiras, de modo que as pessoas percebam como o saneamento pode afetar positivamente suas vidas em diversos sentidos.

 – Quando falamos em conscientização, como a população pode ser tocada com temas de tamanha importância, como a água e falta de coleta e tratamento dos esgotos?

 Como sou adepto de uma linha freireana, geralmente questiono o uso do termo conscientização, utilizado como uma meta. Na perspectiva que adotamos a conscientização é um processo íntimo, individual, em que interagem diversos fatores advindos da história de vida do sujeito, de suas experiências, educação, da relação familiar e da classe social. Assim, considero que o processo que devemos promover constantemente é de sensibilizar, para que as pessoas tenham condições de desenvolver, individualmente, uma nova consciência para a questão do saneamento. De fato, esse olhar reconhece que não é simples a tarefa, mas dada a importância, a questão do saneamento, atrelada à saúde ambiental, deve pautar constantes interações, estímulos, diálogos e trocas de saberes.

 – Como a população pode ter mais contato com temas ambientais?

 Os temas ambientais e o conhecimento e acesso à ciência tem se constituído como algo marcante nas sociedades contemporâneas. Mas é desafiador canalizar essa oportunidade de acesso a informação para mobilizar a sociedade quanto ao seu necessário protagonismo e participação social. Portanto, o problema em si não é a falta de informação, mas a falta de mobilização para o saneamento. O desafio é superar a inércia e a forma como as pessoas aceitam viver em uma cidade degradada, onde os seus rios são severamente poluídos, convertidos em cloacas. Tomando ideias de Edgar Morin, é preciso religar as pessoas às questões sistêmicas, conectando-as uma consciência planetária.

– Você acha que nossas crianças estão crescendo mais conscientes dos problemas mais atenuantes, como a escassez de água e levando para vida adulta?

 Não sei se as crianças estão crescendo necessariamente conscientes quanto a esses problemas de interesse, mas acredito que elas tem sido mais estimuladas e sensibilizadas a partir de projetos pedagógicos de caráter mais interdisciplinar e aplicado, possibilitando que os temas ambientais estejam mais presentes do que há poucas décadas atrás. Mas de fato, penso que permanece o desafio de ampliar o protagonismo, a mobilização social para a busca de uma postura de saneamento ambiental que seja integral e de forma sistêmica se conecte com a saúde humana e com os limites planetários, dado à crise global de insustentabilidade.

 

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